Homem de calcinha: eles usam a peça íntima por fetiche ou conforto?

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Com camiseta de banda e os braços cheios de tatuagem, o redator Amauri Menezes Filho, 31, de São Paulo (SP), parece com muitos rapazes que você encontra em bares alternativos da capital paulistana. Mas há um detalhe que os difere: a maioria desses caras não veste por baixo das roupas uma calcinha de algodão no lugar da cueca. O motivo para ele optar pela peça é bem simples: “Assim como a cueca, a calcinha tem a mesma função: segurar as partes íntimas”, fala à Universa.

Artista de shibari, técnica japonesa de amarração de corpos, sob o nome artístico Lion On a Diet, Amauri mistura calcinhas e cuecas em sua gaveta de roupas íntimas desde 2015. O hábito começou por necessidade. “Às vezes, as minhas cuecas tinham acabado, aí acabava usando uma das calcinhas maiores da minha namorada”. Porém, conta que experimentou a roupa íntima pela primeira vez quando ainda era adolescente, escondido dos pais. “Era uma coisa de curiosidade, que nem experimentar o sapato do meu pai e da minha mãe. Fazia quando ninguém estava em casa, porque levantaria questões que eu não saberia responder”, diz.

Amauri sempre se identificou com o gênero masculino e namora há dez meses a consultora de marketing digital Aileen Rosik, com quem divide um apartamento no centro de São Paulo (SP) e cuida da cachorra Sussu, da raça akita. Uma família de comercial de margarina, mas sem encanações. Tanto que, enquanto as fotos são feitas pelo fotógrafo da Universa, Aileen produz as poses de Amauri, arruma o vestuário do namorado e o ajuda a contar a história.

Por viver muito próximo ao mundo do fetiche, Amauri explorou, inicialmente, o lado erótico de usar a calcinha, muito comum entre casais heterossexuais. Na novela “O Sétimo Guardião”, o casal Machado (Milhem Cortaz) e Rita de Cássia (Flávia Alessandra) gosta da prática. “O prazer está muito ligado a estar fazendo algo que, teoricamente, não poderia estar fazendo”, diz Amauri.

É o caso de Fernando*, 39, de Guarulhos (SP). Ele começou a usar calcinha quando, ao se casar, percebeu que a mulher, com quem está há 14 anos, só usava roupas de baixo maiores. Por isso, comprou uma lingerie fio dental para ela, que nunca a usou. “Um dia, eu fiquei bêbado e com muita curiosidade de experimentá-la. Gostei da sensação”, afirma. A mulher não sabe do hábito de Fernando, que costuma andar de calcinha pela casa quando está sozinho, mas também a veste quando se encontra com pessoas que curtem o fetiche. “Já saí com mulheres que gostam de me ver de calcinha”, diz.

O conforto da calcinha

Amauri logo percebeu, no entanto, que ele gostava mesmo era do conforto de usar calcinha. “Não uso em uma ocasião especial. Pego uma delas quando não estou a fim de usar cueca e pronto.”

Atualmente, ele tem cinco calcinhas –“mas porque eu tenho poucas unidades de cada peça de roupa mesmo”. Amauri prefere as de algodão e sem renda. “Por que machuca”. As peças precisam, ainda, ter a parte da frente mais larga, para acomodar a genitália de Amauri. Por gosto, ele evita também babados e coisas “ultrafemininas”. “Eu acho brega, mesmo. Se a Aileen aparecesse com uma calcinha dessas a gente transaria de qualquer forma, mas não seria algo que eu falaria: ‘Nossa, amor, que lingerie bonita”.

Outro ponto que o motiva a investir em mais lingeries é a “subversão” em vesti-las. “As roupas, em geral, funcionam para os dois gêneros o tempo todo”, afirma. Amauri narra que, quando trabalhava de madrugada como bartender, costumava usar, em noites frias, uma meia-calça por baixo da calça para se esquentar. “E, teoricamente, meia-calça é roupa feminina. Não faz sentido eu deixar de usar algo tão prático porque é ‘coisa de mulher’

Além das roupas íntimas, o autônomo também costumava usar saias –“parei porque virou o estereótipo do cara ‘desconstruidão'”– e não tem problemas em usar blusas cropped, que mostram a barriga. “Isso quando não pego blusas que a minha namorada compra para ela e que servem em mim”.

Por mais que essa mistura de roupas “de mulher e de homem” seja algo muito natural na casa de Amauri, ele acredita que é importante falarmos de sua lingerie porque estamos em um momento de discussão. “Acho válido tratarmos de qualquer comportamento que fuja do que ‘é correto’ e que não agrida ninguém. Não acho que todos os homens deveriam usar calcinha daqui para a frente, mas deveríamos discutir isso sem cair na piada”.

 

Fonte: Uol

 

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