“Dia de fúria corp” : conheça a história de um dos primeiros virais da web

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Em 1997, quando o modem e as correntes de e-mail ainda engatinhavam e plataformas como Facebook e YouTube não estavam sequer na barriga dos pais, a câmera de vigilância de um escritório nos EUA registrou aquele que se tornaria, se não o primeiro, o mais longevo meme da internet.

O vídeo mostrava um funcionário se levantar furioso da cadeira, arrebentar com o teclado o monitor de um velho PC e sair andando sob o olhar assustado e incrédulo de um colega do trabalho. Em 30 segundos, Vinny Licciardi, o funcionário que entraria para a história como “Angry Man”, mudou para sempre os parâmetros de espaço e tempo da cinematografia contemporânea –lançado quatro anos antes, havia de tudo em “Um Dia de Fúria”, com Michael Douglas, menos a intensidade dramática de Licciardi.

O arquivo do flagrante correu o mundo sob o nome “badday.mpg”. E é até hoje compartilhado. O que pouca gente sabe é que aquele meme era, na verdade, um marketing viral dos mais primitivos.

Como o poeta de Fernando Pessoa, Licciardi era um fingidor, daqueles que finge tão completamente que chega a fingir que é raiva a raiva que deveras sente. Quem contou a história foi a revista “Wired”, que conseguiu encontrar o responsável pela zona toda e mostrou que aquele cenário era uma empresa de tecnologia do Colorado (EUA) chamada Loronix, “um tipo de startup de tecnologia em que os colegas de trabalho ficam até tarde para jogar Quake online pela cobiçada linha T1 da empresa”.

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A estética do vídeo, capturado por uma câmera de segurança, não capturava um flagrante. Segundo a revista, a Loronix estava desenvolvendo justamente uma tecnologia de DVR para tal monitoramento e precisava de uma amostra para ilustrar a novidade aos clientes em potencial.

Com uma câmera de vídeo analógica na mão e um projeto de venda na cabeça, Licciardi e seu chefe, o diretor de tecnologia Peter Jankowski, pensaram em várias possibilidades. Antes dos 30 segundos de fúria, eles filmaram o funcionário fingindo roubar um caixa eletrônico e o depósito da empresa. Não viralizou. Licciardi sugeriu, então, interpretar o papel de “empregado descontente”. Precisava apenas de monitores e teclados que já não funcionavam e uma maleta de computador vazia. Na primeira tentativa, os figurantes riram tanto que precisaram gravar tudo novamente.

Na segunda, deu no que deu. O “badday” se tornou, assim, o pai do trote da Telerj, da música do Mamute, dos óculos da Ilze Scamparini, do Michael Jackson comendo pipoca, da Luiza que (espera-se) uma hora dessas já voltou do Canadá e dos novos e jovens virais produzidos e compartilhados em proporção geométrica –e que precisam de uma espécie de curadoria de páginas como Saquinho de Lixo, Ex-miss Febem, Galãs Feios e Memearia Gourmet, no Instagram, até virarem clássicos.

Para ganhar o mundo, o vídeo precisou se adaptar: primeiro, foi convertido em MPEG-1 para rodar em Windows Media Player (352 x 240 de resolução, um latifúndio para a época), depois virou GIF. Foi parar no YouTube. Antes, era só um vídeo gravado em CDs promocionais e distribuído em feiras comerciais com um folheto da empresa. Licciardi percebeu o tamanho do estrago quando, certo dia, viajando de avião, contou ao passageiro ao lado sobre o vídeo. “Eu vi isso”, respondeu o sujeito, que foi acompanhado pelo passageiro de trás, e por outro, e por outro.

Fã clube

Nada disso teria acontecido se as pessoas ainda precisassem baixar o arquivo recebido or email e esperar cerca de 20 minutos para assistir ao vídeo original. Ou se, após ficar vidrado na obra, o desenvolvedor Benoit Rigaut não tivesse criado um site de fãs para compartilhar o arquivo de 5 MB em um site na Europa sem cota de tráfego –assim era a vida em 1998.

Rigaut começou ali a desvendar o mistério por trás da história do homem furioso. O site antecipou, quase por acidente, a estética dos teóricos contemporâneos da conspiração na internet, com seus close-ups quadro-a-quadro e círculos vermelhos.

A página fez sucesso, começou a receber milhares de visitantes a cada dia, tornou o compartilhamento do vídeo mais fácil e chegou até o protagonista do filme, que passou a trocar emails com o criador do site.

Não fosse ele, é possível que o índice de estraçalhamento de computadores virasse de fato uma epidemia naquele fim de anos 90. Graças àquele vídeo, os desejos de fúria eram de certa forma sublimados nos cativeiros do mundo corporativo. Em 30 segundos, a fúria de Licciardi se traduzia em uma espécie de sonho de liberdade. Com ele, estávamos vingados.

Como uma subversão do poema de Fernando Pessoa, na dor vista, o internauta se sentia bem. E voltava a produzir relatórios em escala industrial entre computadores presos por todos os cabos e emaranhados em paredes e baias opacas.  Na era dos GIFs, a raiva fingida de Licciardi continua a circular e a aquietar quem ainda sonha em viver seu próprio dia de fúria cada vez que o sistema precisa ser reiniciado de maneira abrupta. “Estou espantado por ainda estar circulando, mas acho que todos podem se identificar com esse momento”, resumiu à Wired o nosso herói. “Todos querem fazer isso em algum momento de suas vidas.”

Atire a primeira tecla quem um dia não quis ser Vinny Licciardi.

 

Fonte: UOL

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